
20 anos GEDMMA
GRUPO DE ESTUDOS DESENVOLVIMENTO, MODERNIDADE E MEIO AMBIENTE (GEDMMA)
E MOVIMENTOS POPULARES: HERANÇAS E TRAJETÓRIAS DA RESISTÊNCIA

Foto: Missa em homenagem a Maria Máxima Pires (in memoriam), liderança da comunidade Tradicional do Rio dos Cachorros no dia 13/12/2025.
No ano de 2004, estudantes do curso de graduação em Ciências Sociais da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), embora ainda por serem apresentados às “Teses sobre o conceito da História”, de Walter Benjamim (1987, p. 227), de onde se tira: “os que num momento dado dominam são os herdeiros de todos os que venceram antes”, ou aos ensinamentos do mestre Florestan Fernandes (1995, p. 29), que dizia: “o intelectual deve optar entre o compromisso com os exploradores ou com os explorados”, entenderam que se fazia necessária a organização de um espaço em que as memórias das gerações vencidas no continuum da história passassem a compor, também, as narrativas elaboradas pelas penas daqueles que escrevem na academia. Foi daí então que propuseram a criação do Grupo de Estudos: Desenvolvimento, Modernidade e Meio Ambiente (Gedmma).

Foto: Seminário interno de pesquisa do Gedmma em 2015
O Gedmma, portanto, é um grupo de estudos da Universidade Federal do Maranhão (UFMA) que atua em pesquisa, extensão universitária e assessoria a movimentos populares e instituições públicas. Seu surgimento, em 2004, e seu registro oficial no Departamento de Sociologia e Antropologia da UFMA e no Diretório de Grupos de Pesquisa do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), em 2005, estão diretamente relacionados aos conflitos produzidos em decorrência do projeto de instalação de um polo siderúrgico, proposto pelo Governo do Maranhão em parceria com a então Companhia Vale do Rio Doce (hoje autodenominada Vale S.A.) e com a participação da maior siderúrgica chinesa, a Baosteel Shanghai Group Corporation, além da siderúrgica francesa Arcelor, da sul-coreana Pohang Steel Company-Posco e da alemã ThyssenKrupp. Tal empreendimento seria composto por três unidades de beneficiamento de placas de aço e duas indústrias de produção de ferro gusa que seriam instaladas em uma área de 2.471 hectares, localizado na zona rural de São Luís. O polo siderúrgico, se instalado, implicaria no deslocamento compulsório6 de 12 comunidades rurais, totalizando aproximadamente 14.400 pessoas. Essa perspectiva de deslocamento provocou uma resistência envolvendo tanto moradores da área sob ameaça quanto movimentos sindicais e populares, profissionais liberais, lideranças religiosas, professores, estudantes que, juntos, formaram o Movimento Reage São Luís.
Foi nesse contexto de conflito territorial entre as comunidades tradicionais da Zona Rural II de São Luís e os patrocinadores do projeto de siderurgia (Estado e empresários) que, em 2004, os estudantes de graduação do curso de Ciências Sociais da UFMA Bartolomeu Rodrigues Mendonça, Márcio de Jesus Azevedo de Matos e Fabiano Rocha Soares buscaram compreender os processos conflituosos relacionados ao projeto de instalação do polo siderúrgico. Entre eles, alguns eram militantes de movimentos populares e já acompanhavam as discussões sobre o empreendimento em audiências públicas e em reuniões nas comunidades. Desse processo, surgiu a indignação a partir da percepção, por parte dos estudantes, de que as empresas buscavam atuar na universidade, interferindo em currículos e propondo a criação de cursos que atendessem a suas necessidades. Além disso, percebiam também a cooptação de lideranças nas comunidades ameaçadas de deslocamento, conflitos internos provocados por agentes das empresas, intervenção empresarial na organização das associações locais, promessas de emprego e aliança do Estado com as empresas. Aqueles estudantes, por sua inserção no processo de debates e confrontos, apresentavam um panorama da disputa política em torno daquele grande empreendimento. Tais inquietações os levaram a buscar apoio e orientações, ainda em 2004, propondo a formulação de projetos de pesquisas e extensão, juntamente com os professores Horácio Antunes de Sant’Ana Júnior (então recém-chegado do doutorado) e Elio de Jesus Pantoja Alves (então recém-nomeado professor efetivo), ambos do Departamento de Sociologia e Antropologia (Desoc) da UFMA e com trajetórias de participação em movimentos sociais e estudos sobre povos tradicionais na Amazônia. A esse grupo se juntou os também estudantes de Ciências Sociais Ana Caroline Pires Miranda, Rafael Bezerra Gaspar e Allan de Andrade Sousa, iniciando-se as primeiras reuniões do que viria a ser o Gedmma. O engajamento dos estudantes permitiu uma maior interlocução com as organizações de base, quando foram iniciadas algumas visitas nas comunidades do Cajueiro, Mãe Chica, Taim, Rio dos Cachorros e Porto Grande. As intervenções foram discutidas em trabalhos acadêmicos, artigos científicos e monografias de final de curso de graduação.
A percepção inicial da situação orientou o grupo a estabelecer pressupostos teóricos e metodológicos que levassem a uma reflexão ampliada na qual a crítica não poderia limitar-se às circunstâncias da ameaça às comunidades.
Nesse quadro, refutando a narrativa da modernidade, cujo olhar é de que as comunidades rurais seriam estruturas obsoletas que deveriam dar lugar a projetos desenvolvimentistas, o Grupo de Estudos Desenvolvimento, Modernidade e Meio Ambiente (Gedmma) inverteu a lógica da percepção e investiu numa literatura que buscaria reconhecer o protagonismo dessas comunidades, dando visibilidade às suas formas e modos de viver, às narrativas e aos saberes localmente constituídos, rechaçando, assim, a “ideologia do vazio demográfico”. Ou seja, considerando que memórias subterrâneas acerca dos processos de territorialidade e de vida digna possam emergir nas arenas de disputa, fomentando discussões sobre os “projetos para a nação” que superem a percepção formulada do lugar de atraso que precisa dar espaço ao progresso, buscando valorizar o lugar de vida digna que merece respeito e que contém em si formulações importantes para pensarmos políticas e processos sociais.
De fato, ao longo desse período e desde seu início, o Gedmma tem não somente estudado os conflitos decorrentes de projetos de desenvolvimento e seus efeitos sobre as comunidades, como também tem se inserido no debate público como ator político, sem, no entanto, abrir mão do uso social de sua produção científica como ferramenta de contestação à produção hegemônica de se fazer ciência. Talvez esta seja uma das marcas mais evidentes do grupo e também demarcador de sua trajetória: a busca por compreender a realidade envolvente, com seus projetos hegemônicos de poder, discursos dominantes, resistências e projetos de futuro, numa opção pela atuação crítica. Essa trajetória, entretanto, não tem ocorrido sem grandes desafios. Desafios desde o ponto de vista do reconhecimento de uma forma distinta de se fazer ciência, em que se coloca a produção acadêmica numa relação dialógica e horizontal com outras formas de saberes, assim como desafios de reconhecimento dessa forma de produção de novos saberes do ponto de vista institucional e operacional dentro das próprias entranhas burocráticas acadêmicas. Desafios que, pelo menos em parte e de certa forma, têm sido suplantados com a criatividade e a criticidade, advindas, sobretudo, do aprendizado contínuo entre seus membros e entre estes, fundamentalmente com os saberes das comunidades, suas lutas, seus sentimentos, suas racionalidades, suas emoções, continuamente compartilhadas.
Texto escrito por:
Elio de Jesus Pantoja Alves; Bartolomeu Rodrigues Mendonça; Cíndia Brustolin; Horácio Antunes de Sant’Ana Júnior e Tayanná Santos de Jesus Sbrana.
Texto disponível em:
Tramas para a justiça ambiental: diálogo de saberes e práxis emancipatórias / organização de Raquel Maria Rigotto, Ada Cristina Pontes Aguiar, Lívia Alves Dias Ribeiro. – Fortaleza: Edições UFC, 2018.
https://drive.google.com/drive/folders/1jqDGwTanNC2DPkn5cdC7b3pcM_7F6SrO
Anacleta Pires
Anacleta Pires - Liderança quilombola e orixá Guerreira dos quilombos do Brasil, em especial do Território Quilombola Santa Rosa dos Pretos/MA.
Maria Máxima Pires
Maria Máxima Pires, líder comunitária, ambientalista militante e uma das vozes de defesa da Reserva Extrativista de Tauá-Mirim/MA
Francivania Gonçalves
Fran Gonçalves - Educadora popular, Comunicadora popular, Pesquisadora do Gedmma.
Moradora e liderança da comunidade Tradicional Taim, uma das 12 comunidades da Resex Tauá-Mirim/MA. Graduada em gestão de RH
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